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EM TERRAS ZAPATISTAS

Quarta, 20 de Julho de 2011 Entre os meses de maio e junho de 2011 estive no México, no estado de Chiapas, com o intuito de conhecer as conquistas e lutas zapatistas. E, pode-se afirmar, com toda certeza, que o zapatismo é um dos fenômenos mais complexos e ricos dentro dos recortes das lutas socialistas empreendidas na nossa América latina. O zapatismo, tendo à frente o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), apareceu no cenário mexicano e internacional em primeiro de janeiro de 1994, dia em que o tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos e o Canadá (Nafta) entrou em vigor. Neste dia, tomaram a cidade histórica de San Cristóbal de Las Casas. O governo mexicano reagiu e enviou o exército, o que gerou um pequeno conflito bélico. Diante do impasse, o EZLN e o governo mexicano, o “Mau Governo” nos dizeres zapatistas, fecharam um acordo de cessar fogo, com a mediação fundamental de Dom Samuel Ruiz, então bispo de San Cristóbal. Apesar dos descumprimentos dos Acordos por parte do “Mau Governo” os zapatistas puderam atuar na política mexicana. Sob a liderança do subcomandante Marcos, líder político, intelectual e militar do zapatismo, conseguiram diversas vitórias políticas para os camponeses, índios e mestiços de todo o México. Não participam da política institucional, preferindo realizar o que chamam de “Outra Política”. Recentemente Marcos e outros líderes zapatistas percorreram o México, realizando contatos com movimentos, grupos e partidos que também pretendem construir um novo e socialista México, fora da institucionalidade burguesa. Inicialmente, o EZLN era um grupo guerrilheiro, de orientação marxista tradicional. Em Chiapas, recebem o apoio de índios e mestiços camponeses que estavam ameaçados, pelo tratado do Nafta, de perder o seu Éjido, forma de plantação em comum desenvolvida pelos índios. Assim, houve um encontro entre os anseios de empobrecidos índios e revolucionários marxistas, criando um tipo de socialismo indígena do século XXI. Hoje eles possuem municípios autônomos em Chiapas, os chamados Caracóis. Deve-se esclarecer que os zapatistas não pretendem se fechar nestes municípios, mas sim construir um novo México. Assim, a influência do zapatismo estende-se por todo o México, seja nas lutas pelos direitos dos trabalhadores ou na construção de uma nova esquerda. Visitei dois Caracóis. O primeiro, de nome Oventic, situa-se mais próximo de San Cristóbal, na beira da estrada de asfalto. Antes de chegar, uma placa na estrada já dizia que ali mandava o povo e que o governo obedecia. Chegando, encontrei um local parecido com um assentamento do MST, porém bastante cercado, com muita segurança. Tive de me identificar, inclusive mostrando passaporte. Deixaram-me adentrar, porém trocaram pouquíssimas palavras. Todas as pessoas estavam mascaradas e uma mulher, com lenço no rosto, acompanhou-me durante toda a minha estada. Conheci casas muito simples, porém com belos desenhos em forma de painéis, assim como conheci a escola, o hospital, a venda, a cooperativa de café e de artesanato. Todos mantidos por eles, já que recusam recursos do “Mau Governo”, ou seja, os governos institucionais. No segundo Caracol, de nome Morelia, tive muitas dificuldades de chegar ao local. Tomei vans lotadas que caminhavam em estradas cheias de curvas, camionetes velhas, de pneus gastos e cheia de índios e mestiços na carroceria, numa enorme falta de segurança. Além de tudo, o exército estava nas estradas. Caminhei por estradas de terra, rodeadas de montanhas, onde possivelmente estavam os membros do EZLN. Neste segundo Caracol, bem mais rústico e rural, encontrei a mesma segurança para adentrar. Porém, pude conversar com a “Junta de Bom Governo” e conhecer mais um município autônomo, que faz suas plantações apenas de forma orgânica. Por fim, analiso que foi uma vivência política inesquecível, que estou documentando para um livro. Apesar de toda a segurança que eles impõem, senti que era necessária no contexto atual mexicano, pois tanto o exército como os paramilitares atuam na região. E, como conclusão, analiso que os zapatistas podem tanto se fechar em seus Caracóis como conseguir levar sua proposta de “mudar o mundo”. Oxalá, vença esta segunda opção! Publicado: Correio da Cidadania http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6072:amlatina200711&catid=30:america-latina-&Itemid=187
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 09h44
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As Esquerdas no México e no Brasil

Sáb, 04 de Junho de 2011 Estou no México realizando pesquisa sobre as escolas zapatistas. Encontrei muitas dificuldades para adentrar nos centros dos municípios autônomos zapatistas. Eles vivem um momento de fechamento e, assim, tive de vivenciar uma realidade de pessoas mascaradas que praticamente se recusavam a conversar. Mas isto fica para outro artigo. Por ora, apresento um quadro da esquerda mexicana e faço uma comparação com a brasileira. Esclareço que a política é dinâmica e, consequentemente, não é necessário dizer que as posições das esquerdas são eivadas de táticas e estratégias diferentes. O México vive uma realidade política em que duas esquerdas, incomunicáveis, coexistem. Uma é a esquerda institucional, que atua com objetivos eleitorais e poderia ser enquadrada como uma social-democracia tardia, moderada e liberal, porém com maiores preocupações sociais. Tem à frente o PRD e seu candidato à presidência Lopez Obrador, que nas últimas eleições perdeu para Calderón por uma diferença de 1% dos votos. Seria a esquerda moderada, “responsável” e oficial. É apoiada, dentre outros, pelo Partido Comunista Mexicano. A outra esquerda, não institucional e socialista, não participa de eleições e nem apóia candidatos. Tem o zapatismo como uma forte referência. É apoiada pelo EZLN, pelo Congresso Nacional Indígena (CNI), que representa a ala esquerda do indigenismo mexicano, por jovens desvinculados de partidos, como os anarco-zapatistas (apesar de o zapatismo não ser anarquista) e por pequenos partidos, como o Partido Comunista do México. Recusam-se a aceitar as diversas bolsas para os pobres que são distribuídas no México. Atualmente atuam em torno da “Outra Campanha”, proposta pelos zapatistas. Sua principal debilidade seria a pouca influência no movimento sindical mexicano. A esquerda brasileira apresenta um quadro com proximidades e diferenças. Se no México temos duas posições, no Brasil teríamos três. Pela direita, temos uma “esquerda liberal”, com preocupações sociais e de mercado e muito hegemônica no atual contexto. É liderada pelo PT e apoiada pelo PSB e o PCdoB. Tem o apoio das mais importantes centrais sindicais, como a CUT, e da UNE. É fortemente institucionalizada e está no poder desde o início dos anos 2000. Ainda possui quadros da esquerda socialistas, mas são muito minoritários. Poderíamos, grosso modo, fazer um paralelo com o PRD e seu candidato Obrador. Pela esquerda socialista, não temos uma esquerda radicalmente anti-institucional, como no México, nem, logicamente, um movimento como o zapatismo, mas temos dois campos. No primeiro, temos uma esquerda partidária, aguerrida e importante, mas com pouca base social e sindical. É o caso do PSOL, PSTU e do PCB. Fazem oposição ao lulismo pela esquerda e buscam construir uma “Frente de Esquerda”, apesar das dificuldades decorrentes das diferenças entre eles. Participam das eleições com candidaturas próprias. Ainda no campo da esquerda socialista, temos uma segunda posição, hegemonizada pelo MST, pela Consulta Popular e pela Assembléia Popular (o MST participa de ambos). Esta última agrega importantes movimentos sociais e pastorais. Diferenciam-se da “Frente de Esquerda” pelo fato de, apesar de críticos, não fazerem oposição explícita ao lulismo e, eleitoralmente, defenderem o chamado “voto útil” nos candidatos petistas para derrotar os candidatos do PSDB. Analiso que são fundamentais, mas a maior fragilidade estaria no não rompimento explícito com o lulismo e o conseqüente apoio eleitoral, o que pode levar a confusões ideológicas para as bases. Assim, temos dois quadros em que a esquerda se move de modos distintos e próximos. As realidades dos países apresentam diferenças, mas também muitas semelhanças. Assim, temos uma “esquerda”, em ambos os países, institucional e eleitoral, liberal e hegemônica e, pela esquerda socialista, temos diferenças nas ações táticas e estratégias. Ainda é difícil traçar um quadro, mas, com todas as dificuldades, a esquerda socialista se move em ambos os países. Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5905:amlatina040611&catid=30:america-latina- Luta pela educação Diário de Classe: http://www.diariodaclasse.com.br/forum/topics/as-esquerdas-no-mexico-e-no Diário Liberdade: http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=16369:as-esquerdas-no-mexico-e-no-brasil&catid=291:batalha-de-ideias&Itemid=193 Nova Centelha: http://antonioribeironoticias.blogspot.com/2011/06/as-esquerdas-no-mexico-e-no-brasil.html
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 12h33
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Questões para o MST II

É bastante conhecida a passagem em que Marx cita o "cercamento dos campos" na Inglaterra, possibilitando a expulsão dos camponeses e sua substituição por carneiros para a produção de lã. Os trabalhadores expulsos iriam para as cidades trabalhar nas fábricas, muitas vezes produzindo casacos de lã cuja matéria-prima advinha dos carneiros que os substituíram no campo. Este exemplo demarca a história do capitalismo. É um sistema mercantil, que se centra na produção de mercadorias, e não no ser humano. Assim, todos os países que desenvolvem a reprodução do capital tendem a expulsar os camponeses ou, quando muito, integrá-los ao sistema. Hobsbawn em seu conhecido livro "A Era dos Extremos" afirma que a urbanização foi a mais importante mudança deste século, pois, até meados do século XX, praticamente todos os países do mundo ainda mantinham uma população rural bem superior à população urbana. No fim do século, mesmo os países periféricos e "rurais" conhecem uma impressionante migração campo/cidade. Diz: "A mudança social mais impressionante e de mais longo alcance da segunda metade deste século, e que nos isola para sempre do mundo do passado, é a morte do campesinato". (p.284). E assim caminha o capitalismo. Quanto mais o capital adentra em nações para a sua reprodução, menos necessita do trabalhador no campo. No mundo atual, os países considerados "mais atrasados para os padrões capitalistas", como países africanos, asiáticos ou latino-americanos, são os que apresentam uma maior população camponesa. O Brasil vem conhecendo este fenômeno há algum tempo. Fazendo um recorte para o período JK, veremos que a proposta de "cinqüenta anos em cinco" já havia levado a uma grande migração campo/cidade. O período militar radicalizou com sua proposta de "modernização conservadora", "conquista de fronteiras" e "apoio ao agronegócio". Todos estes governos se propunham a "desenvolver" o capitalismo no Brasil e, consequentemente, "urbanizar o país". Nas últimas décadas, o capitalismo mundial tomou novo formato, com a sua reprodução neoliberal. O agronegócio estava consolidado. Mesmo setores de esquerda começaram a crer que a reforma agrária não seria mais necessária. É neste momento que entra em cena o MST, dizendo que existiam trabalhadores querendo terras e que poderíamos ter um projeto de país que os incorporasse. Não era necessário seguirmos o modelo do capitalismo mundial que elimina os camponeses ou os submete. Assim, o MST torna-se um dos mais importantes e criativos movimentos não só pela defesa da reforma agrária, mas também ao questionar o capital e propor um modelo de país em que os camponeses teriam um importante papel. Porém, o capital possui diversas formas de se reproduzir. E a reprodução não acontece apenas no campo da economia, mas também, e concomitantemente, da política. Governos marcadamente neoliberais, como o de Collor ou FHC, foram substituídos por governos liberal-sociais, como o de Lula/Dilma. Se o governo FHC trazia para a cena a luta de classes, com praticamente toda a esquerda se mobilizando contrariamente, nos governos Lula e Dilma a confusão foi instaurada. Muitos movimentos de trabalhadores ficaram desorientados e passaram a fazer análise de "governo em disputa", ou "governo de coalizão de classes", quando claro estava que a única coalizão nos governos Lula e Dilma era a coalizão da classe burguesa. Assim, novamente insisto para que discutamos, no campo da esquerda, estas questões. Não existe reforma agrária capitalista, a não ser para submetê-la ao projeto do capital. Se os trabalhadores querem um projeto autônomo e socialista, devem se organizar para disputar a luta de classes contra os setores do capital incrustados nos meios de produção ou nos governos. A denúncia e a luta contra o capital, representado por capitalistas ou por governos, deve ser o principal objetivo dos socialistas. Coalizões com governos menos ruins ou mais ruins apenas interessam à reprodução do capital. Proponho que discutamos estas questões com franqueza. Correio da Cidadania, 20/04/2011: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5736/9/
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 10h10
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Questões para o MST

O MST continua a ser o principal movimento social brasileiro. Luta de cabeça erguida contra os poderosos e a favor do socialismo em nosso país. Continua - e talvez tenha até aumentado no novo século - com a sua política de ocupação de terras e de espaços políticos urbanos. É uma referência da esquerda mundial e, mesmo assim, perde visibilidade política. Qual o motivo? Creio que podemos apontar alguns para o debate: 1) Nos anos 1990, período de maior crise do socialismo e de consolidação do neoliberalismo no Brasil, houve um recuo de praticamente todos os movimentos sociais e políticos de trabalhadores. A exceção ficou com o MST que, "contra tudo e todos", conseguiu se firmar como uma contraposição ao capitalismo na sua forma neoliberal de então. Ao contrário dos outros movimentos, não se entregou ao pragmatismo ou ao desânimo generalizado do período. Foi à luta e enfrentou o latifúndio, o agronegócio, a imprensa e o neoliberalismo do governo FHC. 2) Porém, findo o governo citado e com a posse do governo petista de Lula, o MST muda as suas ações. Continua a enfrentar o agronegócio baseando suas ações, acertadamente, na luta de classes. Porém, passa a considerar o novo governo como "em disputa". Assim, passa a "disputar" o novo governo, mesmo quando este se mostra hegemonicamente vinculado ao capitalismo e ao agronegócio. O governo passa a não ser visto como um instrumento da classe dominante, mas sim contraditório, abrigando setores de direita e de "esquerda". Portanto, o governo deveria ser disputado e não criticado, pelo menos publicamente. Se o governo encaminhava-se para a direita, a "culpa" era dos movimentos de esquerda que não faziam a disputa "pelo poder". 3) Não apresentando mais contradições com o "gerente do capitalismo", ou seja, o governo federal, e desconsiderando o papel do novo governo na luta de classes favorável ao agronegócio e à direita, o MST perde visibilidade. É dependente das políticas públicas e, aparentemente, defende o governo que gere estas políticas. Parte da grande imprensa passa a se preocupar não com a luta de classes advinda das ações do MST, mas em vincular este ao governo federal para fazer oposição ao governo central. Ou seja, as ações do MST perdem a autonomia na luta de classes e o Movimento Sem Terra passa a ser visto apenas como mais um apoiador do governo. Desta forma, a direita passa a criticar o Movimento para desgastar o governo Lula e não para inserir este debate na luta de classes. 4) O MST torna-se ambíguo nas suas ações políticas. Não realiza críticas ao governo Lula para não se distanciar das bases, devido à popularidade de Lula, e passa a apoiar o bipartidarismo. Ou seja, adere à idéia de que criticar o governo petista seria dar forças para o PSDB. Com isto, nas eleições, por exemplo, nunca engrossa propostas de frentes de esquerda, apoiando sempre o "mal menor" que seria o PT. 5) Ao não criticar o governo, acaba por ter uma visão equivocada do problema da terra no Brasil, respaldando, algumas vezes, o argumento "contra" a reforma agrária usado no período FHC. Este governo dizia que no Brasil não havia mais terras passíveis de reforma agrária. Pois bem, o MST, indiretamente, passa a aceitar este argumento ao começa a lutar contra a lei dos "índices de produtividade" para uma terra ser considerada improdutiva e passível de reforma agrária. Mas estudos do Professor Ariovaldo Umbelino, da USP, já demonstraram que grande parte das terras do agronegócio são devolutas (do governo). Ou seja, o governo, sem mexer nos "índices de produtividade", poderia retomar as terras invadidas pelo agronegócio e realizar a reforma agrária. Claro que isto geraria conflitos enormes, mas um governo de esquerda deveria temer conflitos? Defendo que a esquerda deve – ou melhor, já deveria - deixar de lado a posição bipartidária do mal menor e se reorganizar com cara própria para a defesa do socialismo. Mesmo que minoritária, que não chegue ao governo por agora, deve começar a demarcar seu campo próprio, demarcar suas diferenças com tucanos e petistas e avançar na construção de uma sociedade que supere o capitalismo. originariamente: Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5689/9/ Cedefes: http://www.cedefes.org.br/index.php?p=terra_detalhe&id_afro=5157 Universidade Livre feminista: http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=99&Itemid=483&limitstart=8 Rebelión (em espanhol): http://www.rebelion.org/noticia.php?id=126460 Diário Liberdade (Portugal): http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=14292:questoes-para-o-mst&catid=69:batalha-de-ideias&Itemid=83 Clajadep (em espanhol): http://www.clajadep.lahaine.org/articulo.php?p=10498&more=1&c=1 Movimento Nacional dos Direitos Humanos: http://www.mndh.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2767&Itemid=56 Canarias Semanal (Canárias/Espanha): http://www.canarias-semanal.com/factura.html Alencontre (França): http://www.labreche.ch/Ecran/BresilNeto04_11.html La haine (espanha): http://www.lahaine.org/index.php?p=52815 Dario Vive (Espanhol): http://www.dariovive.org/?p=1070 Comentário de Gilberto López y Rivas (La Jornada, México): http://www.jornada.unam.mx/2011/04/29/opinion/021a1pol
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 17h41
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Entre seis ou meia dúzia: os dilemas da esquerda brasileira

Justino de Souza Júnior (UFC) e Antonio Julio de Menezes Neto (UFMG) Presume-se construir um caráter progressista em torno de Dilma através do artifício de mostrar o conservadorismo reacionário de Serra e de acusar Marina Silva de ter se pintado de "azul-tucano". Tal como no costume antigo, os marqueteiros de Dilma usam a carantonha de seu adversário para espantar os espíritos maus. Abriremos um parêntese para deixar claro que não vamos nos ocupar, por ora, de Serra e de sua gente, pois o consideramos o que de pior temos no quadro político brasileiro, representantes de uma direita retrógrada e de triste lembrança para os brasileiros. Assim, centraremos no "outro lado". Se buscarmos parâmetro para verificar quem representa quem nesse quadro eleitoral através do financiamento das campanhas, verificaremos que, "nos últimos sete meses, o PT arrecadou R$ 44 milhões, enquanto a coligação PSDB, DEM, PPS, PMN e PT do B arrecadou R$ 19,4 milhões" (Brasil de Fato, 26/08-01/09). Serão os pobres que estão financiando a campanha de Dilma? Lembremos que o governo Lula foi o governo do "valerioduto"; da reforma da previdência; que colocou Meirelles no Banco Central e o "blindou", apesar das inúmeras denúncias de crime contra o sistema financeiro que o perseguiam; que contrariou setores progressistas ao favorecer o agronegócio, inclusive beneficiando as práticas produtivas que utilizam abusivamente agrotóxicos (o governo destinará 120 bilhões ao agronegócio em 2010/2011 e cerca de 20 bilhões para a agricultura camponesa); que elevou a produção do superávit primário ao longo do seu mandato para agradar ao FMI e à banca internacional; que recusou a avançar em medidas como a auditoria da dívida, o fim da DRU (a derrubada da CPMF passou a contragosto); elevação do percentual do PIB investido na educação (permaneceu praticamente o mesmo da era FHC); derrubada dos vetos de FHC ao Plano Nacional de Educação de 2001; regulamentação do Imposto sobre as Grandes Fortunas, e muitas outras. Por outro lado, sobre aquele que seria o traço progressista distintivo do governo Lula, os números mostram que a "inclusão" dos pobres, ou as políticas assistencialistas, focalizadas, de "combate" (superficial) da pobreza, não afetam em nada a dinâmica da acumulação do grande capital; por isso devem ser vistas muito mais como concessões (além de irrisórias) necessárias e funcionais para a manutenção da ordem cada vez mais favorável ao grande capital. Além de tudo, e o mais grave, Lula tem sido um dos maiores responsáveis pela desarticulação da esquerda e de qualquer projeto social anticapitalista, pela desmobilização, despolitização e cooptação dos movimentos sociais (vejam-se os casos da CUT, UNE etc.). Para se ter uma idéia do favorecimento ao grande capital como contraface do "auxílio" à pobreza do atual governo, "só no primeiro mandato de Lula, os empresários tiveram um aumento de 400% dos seus lucros. Já o salário mínimo teve um aumento de 57% nesses oito anos" (Brasil de Fato 30/07). Por sua vez, na era FHC os bancos lucraram R$ 34,3 bilhões, enquanto que nos dois mandatos de Lula a previsão é de algo em torno de R$ 170 bilhões, ou seja, cinco vezes mais (idem). As prioridades do governo Lula podem ser vistas na proporção em que se distribuem os gastos sociais e os gastos com pagamento da dívida pública. Segundo dados do IPEA, nos últimos sete anos, o governo gastou 1,27 trilhão de reais com juros. "Os gastos com juros (apenas com o pagamento dos juros), portanto, superam em oito vezes o que foi aplicado em educação e em 10 vezes os investimentos para o país crescer". Entre 2000 e 2007, o total de gastos da União com saúde, educação e investimento correspondeu a somente 43,8% do total das despesas com juros. Em 2009, segundo a PNAD, o Brasil possuía 14,5 milhões de analfabetos e mais da metade dos domicílios não possuíam rede de esgoto. No entanto, o governo destinou 35,57% de seus recursos para amortizar a dívida contra 2,88% para a educação e 0,08% para saneamento. Seria aconselhável, também, darmos uma volta pelas periferias de nossas cidades e vermos a vergonha de nossas favelas e sabermos que o governo destinou 0,01% para habitação (Brasil de fato, 04/10/2010). No ensino superior, criou o PROUNI, talvez inspirado num dos pais do neoliberalismo Milton Friedman, que propunha que o Estado pagasse bolsas para alunos pobres em escolas privadas. E fez muito marketing nos dois últimos anos com o Reuni, quando passou os outros seis sem maiores investimentos. Tanto que o governo FHC, de tristíssima lembrança para a educação, conseguiu abrir mais vagas para alunos em seus oito anos de governo do que Lula em seus oito (ver INEP, Censo da Educação Superior). Ao tempo em que se comemora a diminuição da pobreza no Brasil, cabe observar que a desigualdade entre renda do trabalho e os ganhos de propriedade no Brasil são maiores hoje do que no fim da década de 1980. O principal motor a acelerar essa disparidade são as altas taxas de juros que levam mais água aos moinhos do capital. O ex-presidente do IPEA, Marcio Pochmann, afirma que esses dados são incompatíveis com um país civilizado. "Nas nações com menor desigualdade, a renda do trabalho varia entre 60% e 70% do PIB e, conseqüentemente, a remuneração da propriedade fica entre 30% e 40%" (http://www.brasildefato.com.br/node/2239). A diminuição da desigualdade social é resultado basicamente do Programa Bolsa Família (1% dos recursos da União), cujo investimento anual não atinge 10% dos recursos destinados ao pagamento apenas dos juros da dívida pública (que foi duplicada no governo Lula e já beira os 2 trilhões de reais). Estima-se que este ano o pagamento de juros ficará em torno dos R$ 160 bilhões, quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa Família, que atende mais de 11 milhões de famílias - todos sabem a quem beneficiam esses juros! Além do mais, a "diminuição da desigualdade" é medida entre maiores e menores salários e não entre a renda do capital e a renda do trabalho. Antes de nos contentarmos com o fato de que os outrora miseráveis foram elevados à categoria de pobres - ao mesmo tempo em que ajudam a consolidar o atual estado de coisas por gratidão aos benefícios recebidos e cruzam os braços, tornando-se uma massa dócil -, seria interessante observar como funciona o mecanismo sócio-econômico nas suas diversas facetas. Descartada qualquer possibilidade de cogitação de Serra e sua turma reacionária (vide o seu vice), esse texto não pretende demover ninguém do voto na candidata Dilma, até porque na disputa com o tucano ela parece ser uma opção melhor. Sua pretensão é qualificar o debate, questionar as falácias que envolvem os argumentos que defendem a candidatura Dilma e afirmar que, em última instância, as duas candidaturas se encontram nos limites estreitos dos interesses do grande capital. Trata-se, para os trabalhadores, para os "de baixo", de escolher, dentre os feitores, aquele que lhes pareça menos malvado e o chicote mais brando. Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5118/9/ Resistir: http://resistir.info/brasil/dilemas.html Diário da liberdade: http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=7673:entre-seis-ou-meia-duzia-os-dilemas-da-esquerda-brasileira&catid=69:batalha-de-ideias&Itemid=83 Portal luis Nacif: http://blogln.ning.com/forum/topics/entre-seis-ou-meia-duzia-os?page=4&commentId=2189391%3AComment%3A441088&x=1#2189391Comment441088 Prestes a ressurgir: http://prestesaressurgir.blogspot.com/
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 17h21
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O MST, a esquerda e o “descenso” das massas

O MST é, sem dúvidas, um dos mais importantes movimentos sociais e políticos do Brasil e do mundo contemporâneo. Apresenta uma importante radicalidade ao questionar a propriedade privada capitalista e ao não renegar o socialismo e as possibilidades de superação do capitalismo. Colocou as ações diretas e o enfrentamento ao poder dominante econômico e político no centro de suas ações. Estas ações ficaram demarcadas, principalmente, nos anos 1990 e início dos anos 2000. Ou seja, no período de maior expansão do capital na sua fase neoliberal -de crise das idéias socialistas, do fim da URSS, da incorporação destas políticas no Brasil pelo período FHC- o MST nadou contra a corrente e conseguiu se impor. Num período de crise dos movimentos sociais e em que o movimento sindical, representado pela CUT e Força Sindical, se retraiu para o pragmatismo de oferecerem cursos de capacitação, o MST incomodou as elites, o poder político e econômico e o preconceito, se organizando para ganhar as ruas das cidades e as terras passíveis de reforma agrária, e até mesmo com um novo projeto educativo. Eu analisei estas ações, hoje circunscritas ao período FHC, em meu livro "Além da terra: cooperativismo e trabalho no projeto educativo do MST", Ed. Quartet, em que mostro como, em um período de retração dos movimentos sociais e sindicais no Brasil e no mundo, o MST havia conseguido, pelas ações diretas e por não se curvar ao pragmatismo, ser uma referência para as esquerdas brasileiras e mundiais. Porém, os anos 2000 trouxeram ao Brasil uma nova realidade: a vitória eleitoral de Lula da Silva, um presidente que continuava as políticas de seus antecessores, com algumas diferenças lógicas, mas que tinha uma origem no movimento popular e um ótimo relacionamento pessoal com as massas populares. Este novo governo contribuiu para desarticular ainda mais os movimentos sociais, sindicais e políticos de esquerda. Importantes movimentos, como a CUT, a UNE/UBES e tantos outros iriam aderir, com entusiasmo, ao projeto capitalista, em sua fase liberal-social, do novo governo. Outros manteriam sua postura crítica, como o MST, porém sem a força do período anterior. Estranhamente, passaram a adotar o discurso do "descenso das massas" como algo dado e a ver o governo Lula como um governo de contradição e "em disputa", quando todas as ações do governo demonstravam que o seu direcionamento era para manter a reprodução do capital. Assim, o MST permaneceu como o mais importante movimento social e político brasileiro, mas diluído nas contradições do governo Lula. O problema é que o MST, que foi a grande referência nos mais duros anos de implementação da ideologia neoliberal, que havia mostrado que era possível se organizar, ir para as ruas, ocupar, debater uma nova educação, dentre outras ações; mesmo num período em que tudo dizia não ser possível, que era a referência para a organização contra-hegemônica em um período de hegemonia quase absoluta do capital, passou a assumir o discurso de alguns outros movimentos de "descenso das massas". Ou seja, quem havia mostrado que podemos organizar a contra-hegemonia mesmo nos períodos adversos, muda o discurso e a prática. Passa a se adequar, ainda que parcialmente, ao discurso da "impossibilidade" deixando de lado sua rica experiência dos anos 1990. Precisamos, todos os que lutam pela superação do capitalismo, beber nas fontes das ações do MST nos anos 1990 e início dos anos 2000 e deixar de lado o conformista discurso de "descenso das massas", adotado, inclusive, pelo MST no período Lula. O Movimento dos Sem Terra possui a chave, que deve estar escondida, ou perdida, em algum canto de algum assentamento. Cabe ao MST e à esquerda recuperarem a chave das mobilizações. Afinal, "não sabendo que era impossível, foi lá e fez". Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 08h55
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A esquerda deve se abstrair das eleições?

A modernidade e o capitalismo são faces da mesma moeda. São produtos e produtores do mesmo momento histórico. E como se conforma a modernidade? Através dos Estados nacionais. Para a expansão e consolidação da reprodução do capital e do capitalismo como um sistema econômico e político mundial, os Estados nacionais, através da administração dos governos, cumpriram e cumprem papel fundamental. É na sua consolidação que o capital e o capitalismo encontrarão sua mais eficiente administração e a própria intervenção para a sua reprodução. Assim, como filhos da modernidade, somos filhos dos Estados nacionais. Situamo-nos e encontramo-nos cultural, social e politicamente nas fronteiras de nossos países. Mas os Estados nacionais abrigam diversas contradições. E é no seio destas contradições que surgem as idéias socialistas, que mostram a contradição entre o capital e o trabalho. Que nos mostram a luta de classes e os diversos interesses inconciliáveis. Os Estados tornam-se mais complexos e os governos, que se ampliaram enormemente no século passado, passam a cumprir diversos e novos papéis sociais. Em alguns momentos são liberais, apoiando o mercado, e em outros são intervencionistas, quando a reprodução do capital assim o exige. Mas as contradições atingem também o governo. O grande número de funcionários, notadamente nas áreas da educação e saúde, onde as gestões dos Estados pelos governos assumem uma intervenção maior, leva estas contradições ao governo. E, também, os ideais socialistas, moldados na modernidade, passam pela conquista de governos. Assim, não podemos e não devemos nos abstrair desta discussão e discutir apenas as mazelas do capitalismo sem debater o seu gestor. Ou seja, precisamos denunciar e nos organizar contra o capital e o capitalismo na sua totalidade, enfrentando quem o reproduz e quem o administra. Desta forma, os movimentos de trabalhadores, de estudantes e os movimentos sociais devem se posicionar claramente nos embates diretos com o capital e com seus gestores. Não devem deixar que se criem as ilusões de que um governo de origem popular, que recebe bem e é amigo de militantes dos movimentos sociais e sindicalistas, administre o capitalismo com o apoio dos próprios trabalhadores. Dito de forma mais clara: devemos dizer que o governo Lula e sua candidata contribuíram e irão continuar contribuindo para bem administrar o capitalismo e o capital. Com diferenças com o neoliberalismo de FHC/Serra, mas com muita continuidade. E o pior é que a continuidade se centra na manutenção da reprodução do capital e do capitalismo como sistema econômico e social/cultural/político. Devemos denunciar estes governos e apoiar candidaturas claramente comprometidas com gestões populares e anticapitalistas. Devemos disputar os governos de forma independente, mesmo que este fato não resulte em vitórias eleitorais imediatas. Afinal, quem se lembra ou estudou a história do PT sabe que ele começou pequeno, sem perspectivas eleitorais imediatas, mas compromissado com práticas e princípios que se colocavam ao lado do mundo do trabalho contra o capital. Que estava crescendo nas bases e nas lutas, mas que foi atropelado pelo imediatismo. Assim, defendo que as esquerdas busquem sua unidade em candidaturas claramente posicionadas e que continuem seu trabalho de base, mas que não abram mão de disputar eleições com discurso e práticas próprias. Não existe contradição entre disputar os governos e desenvolver trabalhos de base. Pelo contrário, disputando governos aproveitamos o momento político para debatermos propostas e podemos levar a contradição ao Estado nacional. De outro modo seremos engolidos novamente pelo voto útil que, na maioria das vezes, se torna inútil se queremos superar o capitalismo. Correio da Cidadania, 18/06/2010 http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4749/9/
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 08h45
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Battisti e os anos de chumbo na Europa

Como foi salientado pelo colunista Vittorio Medioli (Política, 26.11), o "regime democrático sobrevive no contraditório". Assim, queria apresentar o contraditório do caso Cesare Battisti, lembrando que a Europa conheceu, entre 1970 e 1980, os chamados "anos de chumbo". Nesses anos, em diversos países, jovens pegaram em armas sonhando implantar o socialismo. É o caso do Grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, ou das Brigadas Vermelhas, na Itália. Também existiram grupos menores, como o Proletários Armados para o Comunismo, ao qual pertenceu Cesare Battisti. Apesar do caráter político desses grupos, a Itália nunca admitiu esse conturbado período político, taxando esses ativistas de "criminosos comuns".
Na época, o Congresso italiano criou "leis de exceção" e, mesmo passados 30 anos e a Itália ter se consolidado tanto no plano político democrático quanto na economia e nas leis de proteção social, essas leis dos "anos de chumbo" ainda continuam vigorando como lembranças dos conturbados anos 70 e 80.
Assim, jovens que pegaram em armas, naquele período, para a luta política, não foram anistiados e continuaram sendo tratados como "criminosos comuns". Atitudes diferentes tiveram os países latino-americanos, que, findadas as ditaduras militares, anistiaram os envolvidos e retomaram o Estado de direito. E nos períodos de FHC e de Lula, diversas personalidades que pegaram em armas nos anos 60 e 70 assumiram postos nos governos sem nenhum trauma.
Lembro esses fatos para ver o outro lado do caso Battisti. E entrego a ele próprio sua defesa, já que escreveu uma carta ao povo brasileiro e ao presidente Lula. Battisti recebeu asilo político do governo Mitterrand sem que a Itália fizesse tanta pressão por sua extradição. Mas agora, sobre o Brasil, quer que rasguemos nossa autonomia para extraditar ou asilar.
Na carta, Battisti defendeu que muitos sonham com um mundo mais justo, mas poucos se lançam na luta e, dentre esses, alguns sacrificam a própria vida. Esse foi o caso dele e de milhares de italianos que, nos conturbados anos 70, pegaram em armas. Lembra que muitas conquistas sociais que hoje usufruem os italianos são consequência dos sonhos e do sangue dessa geração. E salienta que é fruto desses sonhos, junto, inclusive, com muitos brasileiros que aqui também lutaram e que hoje governam o país. Lembra, também, que foi condenado, na Itália, por ativismo político, que foi julgado à revelia e que não existe nenhuma prova dos delitos a que foi condenado. E termina dizendo: "Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória nessa guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e da liberdade".
Esse é um caso polêmico inclusive na esquerda italiana. Mas os dois lados da história merecem ser conhecidos.
Publicado em: 07/12/2009 Jornal O Tempo- http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdEdicao=1503&IdCanal=2&IdSubCanal=7&IdNoticia=128571&IdTipoNoticia=1
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 16h39
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Reformar o capitalismo ou ir além do capital? As lutas dos socialistas ao longo dos dois últimos séculos têm se dado de forma diferenciada, dado que o capitalismo é um sistema que não se reproduz linearmente. Desta maneira, encontramos diversificadas formas de organização por parte dos trabalhadores na sua luta contra o capital. Ações diretas, partidos, sindicatos, movimentos, luta armada, luta ideológica, marchas, caminhadas, dentre outras, compõem o mosaico de atividades da esquerda. E, dependendo do estágio de organização dos trabalhadores, estas ações encaminharam para projetos reformistas, revolucionários ou totalmente integrados à ordem capitalista, como aconteceu nos últimos vinte anos. A questão das reformas sempre apareceu na ordem do dia dos socialistas, comunistas e outros revolucionários. Mas, para estes, a reforma não era um fim em si mesmo, ou melhor, não buscavam apenas um capitalismo reformado. Porém, muitas vezes, estas lutas organizadas por revolucionários sinceros foram passíveis de ser assimiladas e, pior, integradas ao projeto de reprodução do capital, como no caso da Europa. Outras vezes defendia-se a necessidade das reformas para que alguns países pudessem construir um sistema produtivo e uma classe trabalhadora organizada como, por exemplo, por diversas ocasiões, com este intuito, o antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) defendeu as reformas. Neste caso, lutavam pela reforma agrária, reforma urbana, reforma do ensino, reforma trabalhista etc. Mas também temos casos em que as reformas apresentam-se como um fim em si mesmo, sem que as críticas ao capitalismo fossem colocadas em pauta. É o caso da social-democracia européia. Outras vezes, as reformas não questionam o capitalismo e servem ao projeto de reprodução do capital, como é o caso do governo petista no Brasil atual. Hoje, com o Brasil injusto, porém moderno e capitalista, ainda seria necessário lutarmos por reformas? Creio que, mesmo que a mudança para além do capital não esteja "batendo na porta", não podemos ficar mais parados esperando ela "vir bater". Precisamos colocar a questão do socialismo na pauta das lutas, em lugar das reformas. O capitalismo, no atual estágio, não necessita mais ser reformado. Necessita ser superado. Se o capitalismo já teve um caráter civilizatório, na sua luta contra o feudalismo, hoje não mais se sustenta. São mais de 500 anos em que nega o direito ao trabalho a milhões de pessoas, destrói o meio ambiente, nos torna dependentes da mercadoria. Não mais merece o crédito da reforma. Desta forma, proponho que a esquerda abandone o termo "reforma" nas suas reivindicações e, mesmo que a luta esteja dentro dos marcos do capitalismo, se busque um termo mais apropriado para o momento atual. Os últimos 20 anos, neoliberais, foram anos de muitas mudanças, na economia, na cultura e na política. Porém, estamos vivendo um momento de esgotamento deste período e, com certeza, os capitalistas já buscam outras formas de reprodução do capital. Assim, precisamos neste momento, mais do que nunca, disputarmos nosso projeto de sociedade que deve ir além do capital. Publicado no Correio da Cidadania 18/04/2009 http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3182/9/
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 18h44
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Um Caminho Anticapitalista no Brasil
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| A esquerda brasileira vive um momento de fragmentação e procura de rumos. É inegável que as causas não são simples. A desagregação do socialismo real e o caminho quase único vivido pela forma de reprodução neoliberal do capital foram motivos fortes o bastante para desarticular a esquerda. Concomitante, ou por causa disso, a maior parte da esquerda mundial capitulou para propostas liberais-sociais. Foi o caso de partidos comunistas e socialistas na Europa e do Partido dos Trabalhadores no Brasil. Neste processo, os partidos políticos foram se descredenciando junto àqueles que mantiveram as rebeldias anticapitalistas e muitos militantes foram se abrigar em movimentos sociais e ONGs, abandonando a perspectiva da disputa do poder central. Afinal, o Brasil era um exemplo da impossibilidade de mudanças via partidos, pois as classes populares haviam construído um partido de baixo para cima, crítico ao capitalismo, que, chegando ao poder, capitulou. O problema é que o partido e a disputa do poder político continuam tendo certa centralidade. Apesar da necessária autonomia entre partidos, movimentos e sindicatos, é o partido que consegue congregar as diversas lutas e os diversos interesses dos trabalhadores, dos movimentos sociais e das classes exploradas no capitalismo. Sindicatos e movimentos sociais são fundamentais, mas possuem especificidades e defendem interesses específicos. Como os partidos estão em descrédito, as lutas tornaram-se específicas e fragmentadas, dando vazão ao culturalismo pós-moderno. É neste sentido que necessitamos, urgentemente, reconstruir a esquerda partidária socialista no Brasil. Estamos divididos entre diversos e minúsculos partidos, fóruns, conselhos, sindicatos, consultas, movimentos, mas não temos um ponto de união para disputarmos efetivamente o poder de Estado. E a disputa pelo poder de Estado pelas classes populares é fundamental. Sem a presença, ou apoio, de um Estado popular, como manteremos as universidades, escolas, hospitais, faremos a reforma agrária, enfrentaremos o capital especulativo, os grandes meios de comunicação e por aí afora? Precisamos passar por cima de divergências e sectarismos, olhar para a história da esquerda do século passado, para aprendermos nos erros e acertos, e não para ficarmos disputando "ismos". É fundamental construir um partido que, mesmo pequeno e com diversas dificuldades em seu início (como o PT foi um dia), represente a possibilidade de contribuir para superar o capitalismo. A França está seguindo este caminho, pois a esquerda francesa uniu-se e criou o Novo Partido Anticapitalista (NPA). Este partido, conforme uma de suas maiores lideranças, Olivier Besancenot, conseguiu unir grande parte da tradição anticapitalista, como os "trotskistas, socialistas, comunistas, libertários, guevaristas, ou envolvidos na ecologia radical", e se propõe a realizar uma ruptura radical com o Partido Socialista. Temos aqui no Brasil um enorme potencial, pois construímos uma tradição que ainda não se perdeu nas entranhas da burocracia. Precisamos nos unir para "batermos de frente" com o poder central liberal-social, para termos pontos de referência mais concretos do que o "nosso" movimento. Pois senão, estaremos sentados em nossa impotência e reclamando que os tempos são difíceis, dizendo que o lulismo "engoliu" a esquerda. Publicado em Correio da Cidadania em 19-Fev-2009 http://www.correiocidadania.com.br/content/blogcategory/0/47/ |
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 16h51
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Avanços e recuos no FSM 2009
| Escrito por Antonio Julio de Menezes Neto | | 09-Fev-2009 | O Fórum Social Mundial surgiu no ano de 2001, sendo realizado, então, na cidade de Porto Alegre. Era claramente um ponto de resistência e contraposição ao Fórum Econômico de Davos. Apesar de ter tido apenas cerca de 5 mil inscritos, era livre a entrada nas dependências do Fórum e imagina-se que mais de 20.000 pessoas participaram. Foi de fundamental importância, pois a esquerda perplexa e sem rumo conseguia se encontrar, debater temas, criticar o capitalismo e dizer que um novo mundo era possível. Esta foi a grande mensagem daquele Fórum. É importante salientar que naquele ano o presidente do Brasil era Fernando Henrique, um presidente inequivocamente neoliberal, que conseguia unir contra ele todas as forças progressistas e da esquerda socialista. Assim, um tom de unidade percorria todo o Fórum. Ao longo dos anos, o Fórum cresceu, ganhou importância, internacionalizou-se (já tivemos edições na Índia e na Venezuela) e, dizem, está também institucionalizando-se, com a presença cada vez mais marcante de presidentes de países. Este último Fórum, realizado estrategicamente na cidade de Belém do Pará, pois a Amazônia é uma das regiões do planeta mais debatidas e cobiçadas, teve cerca de 133 mil inscritos. Porém, não foi permitido o livre acesso do público e a presença do exército foi constrangedora. O Fórum foi realizado em duas universidades públicas (UFPA e UFRA), ambas cercadas por favelas. Em vez de fazer um trabalho educativo com estas comunidades, o princípio da repressão prevaleceu, buscando afastar estes "incômodos" moradores dos debates do Fórum. Quero levantar alguns problemas: está crescendo o número de jovens que se deslocam para os acampamentos apenas para (re)viver o Woodstock. Não vejo este fato como totalmente negativo, pois mesmo estes jovens acabam entrando, de alguma forma, no clima do Fórum e a presença do jovem, com sua rebeldia, é mais do que fundamental. É imprescindível. Mas também junto a estes é necessário um trabalho de aproximação política. Vejo como mais problemático uma predominância do lulismo em muitas discussões. Sabemos que fortes movimentos, como a CUT e a UNE, são umbilicalmente vinculados ao governo Lula. Também, diversos intelectuais e movimentos menores, como as pastorais, evitam qualquer crítica aos governos liberais-sociais, como o é o caso do governo Lula. Também o MST, o principal movimento social do Brasil, juntamente com a Consulta Popular, que abriga muitas jovens, mantém uma política ambígua em relação ao governo Lula. Assim, as críticas claramente à esquerda ficam circunscritas à pequena esquerda socialista brasileira. Mas nada disso ainda tira o brilho do Fórum. Ele ainda teve, e terá, um papel de aglutinar, mesmo que de forma fragmentada, boa parte da esquerda e ser uma referência de lutas. É um espaço único no qual o capitalismo é criticado em suas múltiplas contradições. Assim, vejo que o Fórum ainda está longe de ser esgotado, mas começa a passar por críticas e disputas hegemônicas em seu seio. Um novo mundo ainda é possível e necessário. Precisamos apenas dizer claramente que este mundo não é o capitalismo, um sistema produtor de mercadorias e que, para tanto, destrói a natureza, explora o ser humano e procura nos tornar apêndice da mercadoria. Precisamos dizer que queremos superar o capitalismo e construir o socialismo revolucionário. Publicado em 09 de fevereiro de 2009. Corrreio da Cidadania www.correiocidadania.com.br |
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 13h22
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A Venezuela e os desafios para o Socialismo do século XXI

A Revolução Bolivariana, ou o "Socialismo do século XXI", encontra-se em um momento crucial de disputa hegemônica. A oposição quer se livrar da imagem de truculentos golpistas e investe na "renovação liberal" e "democrática" e no discurso de combate à violência, um tema que preocupa os venezuelanos tanto quanto aos brasileiros. Liderados por parte de um movimento estudantil que se ampara num vago conceito de "democracia" e liberalismo, estes estudantes buscam manter privilégios com um discurso conservador.
Além do mais, o imperialismo americano recicla-se com o fim da era Bush e a entrada em cena de um presidente negro e democrata, o que obrigará, possivelmente, a um formato diferente da Revolução Bolivariana no enfrentamento aos EUA. Aliado a estes fatores, a oposição ainda se mantém com consideráveis privilégios econômicos e continua detendo grande parte do controle dos meios de produção. Além do mais, o enfrentamento a uma nova burocracia chavista é um desafio para a Revolução.
Um grande problema enfrentado pelo governo Chávez é a convivência de duas políticas. De um lado, o governo investe em políticas sociais, centralizado nas diversas "Missões" que enfrentam o analfabetismo; propõe e coloca em prática uma nova educação em todos em níveis; enfrenta o problema da saúde para os mais pobres; investe no cooperativismo e na economia solidária; realiza uma reforma agrária; e reestatiza setores básicos da economia que haviam sido privatizados no período neoliberal de Carlos Andrés Perez.
Além do mais, investe na organização da sociedade através dos Círculos Bolivarianos e das Comunas. Os pilares do chamado "Socialismo do século XXI" estariam centrados no controle estatal de grandes empresas básicas e no apoio à economia solidária entre os grupos informais. Assim, configuram-se importantes mudanças na sociedade venezuelana capaz de superar o próprio personalismo de Chávez.
Porém, os antigos privilégios ainda não foram desmontados. Muitas vezes, a Venezuela convive com as políticas distributivas e com mudanças estruturais na economia e na política através das velhas políticas elitizadas e concentracionistas, tanto na economia como na distribuição do poder. Isto gera dificuldades administrativas e certa confusão nas bases populares do chavismo.
As eleições de novembro demonstraram que o governo Chávez pode avançar muito. Venceu em 17 dos 23 estados, 80% das prefeituras e o PSUV teve 1,3 milhão de votos a mais do que a oposição. A participação foi de 65% dos eleitores e rendeu cerca de 60% dos votos para os apoiadores da Revolução Bolivariana e de Chávez. Lembremos que no plebiscito do ano passado, que procurava reformar a Constituição com importantes avanços populares, a participação foi de cerca de 40% e a derrota do chavismo de cerca de 1%.
Como sempre acontece nas eleições do período chavista, o governo não escondeu que estava em jogo à construção do socialismo na Venezuela e a oposição usou a velha cantilena de falta de democracia, apoiando-se no poder econômico, na imprensa e no apoio estadunidense. Aliás, estes últimos jogaram suas fichas nas áreas petrolíferas mais ricas e conseguiram uma vitória importante em Carabobo, demonstrando que a luta contra os privilégios é difícil, mas deve ser enfrentada com vigor.
O processo bolivariano avança. Mas ainda é cedo para conclusões. A disputa hegemônica ainda é bastante presente e cabe ao governo, aos Círculos Bolivarianos, às Comunas, aos partidos de esquerda e aos movimentos sociais avançarem para a radicalização do processo, deixando a dubiedade de um discurso sincero de avanço ao socialismo e avançarem na construção real de uma nova sociedade centrada no ser humano em vez de centrada na reprodução do capital.
Os caminhos estão em aberto e cabe à sociedade venezuelana a escolha de seus caminhos. Que eles definam pelo socialismo!
Publicado: www.correiocidadania.com.br 27/11/2008
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 13h17
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O voto nulo
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| 03-Nov-2008 |
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Apesar da política não ser monopólio dos partidos - como os conservadores tentam nos fazer crer e, desta maneira, excluir os movimentos sociais e os trabalhadores como agentes políticos - é inegável que a disputa política confere um peso muito grande aos partidos e à disputa pelo poder do Estado através da representatividade partidária. E não podemos esquecer que o Estado, desde o século passado, adquiriu uma centralidade muito grande nas disputas pelos projetos políticos. O capitalismo keynesiano e social-democrata contou com forte participação do Estado. Os "socialismos reais" foram, todos, tentativas de construir uma nova sociedade via estatização dos meios de produção e comercialização. Tivemos também as experiências nazistas e fascistas, que também tinham Estados totalitários.
Assim, a modernidade fortaleceu o Estado e centrou-se na disputa pelo poder deste, sendo que nas democracias formais e burguesas o cidadão é chamado para eleger seus representantes através do voto. Esta forma de representatividade toma formatos diferentes em diversos países e no caso brasileiro escolhemos nossos representantes através do voto, contado primeiro para o partido (apesar do desconhecimento deste fato pela maioria dos eleitores, acredito). E, dentre os candidatos do partido, podemos escolher um candidato específico que nos represente e que tenha idéias minimamente próximas às nossas. Caso os nossos candidatos e partidos não sejam eleitos, acatamos, sem necessidade de capitular ou aderir, o resultado das urnas e o eleito passa a representar toda a cidade, o estado ou o país.
Porém, o que acontece quando nenhum dos partidos, coligações ou candidatos comungam minimamente com nossas idéias? Coerentemente devemos exercer livremente o direito de anular o voto, ou seja, de dizer que nenhum daqueles candidatos serve para ser meu representante, de minha cidade, do meu estado ou do meu país. Isto não quer dizer, necessariamente, negação do processo, pois o eleito assumirá a responsabilidade da gestão e, poderemos, livremente, fazer-lhe oposição ou aceitar a sua gestão.
No entanto, temos de reconhecer que o voto nulo é parte do processo instituído e é um direito do cidadão dizer não aos candidatos ou ao processo eleitoral formal. Eu, pessoalmente, fiz esta opção de voto em Belo Horizonte no segundo turno, já que os dois candidatos representavam, na minha avaliação, interesses conservadores e de direita, indo contra as minhas idéias e princípios políticos.
Sei que a discussão do voto nulo comporta interpretações políticas diversas. Existem os que analisam que o voto nulo é a posição coerente com o caos político e eleitoral em que a esquerda brasileira está submetida. Ou seja, seria um momento de negação de todos os processos eleitorais. E existe outra opção, que defende que o processo não deve ser negado e o voto nulo deve ser um instrumento usado apenas na falta de opção. Fico com esta.
Mas como a falta de opções para a esquerda socialista está se tornando rotina nos segundos turnos eleitorais, devemos fazer uma séria análise e buscar construir instrumentos e partidos mais eficazes e unitários na luta para que consigamos ultrapassar a sociedade regida pelo capital e pela mercadoria. Pois, de outro modo, teremos de seguir o caminho constante da anulação de votos no segundo turno.
Correio da Cidadania www.correiocidadania.com.br http://www.correiocidadania.com.br/content/view/2531/9/
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Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 09h31
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Um país sério, que tem políticas sérias?

Uma das principais avaliadoras de risco de investimento mundial, a Standart & Poors, elevou a nota do Brasil, dizendo que agora somos um país confiável para os investidores. Foi o chamado "investment grade". Isto quer dizer que o Brasil tornou-se confiável para investidores estrangeiros, pois o aval é dado pela capacidade de o país pagar as suas dívidas. Esta decisão deve trazer mais capital especulativo ao Brasil.
A nossa nova e boa "reputação", realizada para avaliar principalmente os riscos do capital especulativo, deixou o governo eufórico. O presidente Lula da Silva ficou tão orgulhoso que disse que "O Brasil foi declarado um país sério, que tem políticas sérias, que cuida das suas finanças com seriedade e, por isso, passamos a ser merecedores de uma confiança internacional de que há muito tempo o Brasil necessitava"; e que "Eu jamais imaginei que poderia chegar aonde chegou, porque este cenário era a nossa obsessão". O presidente do Banco Central fez coro e elogiou a política econômica e monetária, destacando o superávit, o câmbio flutuante e as metas de inflação.
Ao mesmo tempo, o MST realiza diversas ações de ocupações de prédios públicos e terras protestando contra a quase total paralisação da reforma agrária no país. Denunciam, com razão, que o governo prioriza o agronegócio. O que deseja o MST e outros movimentos sociais do campo? Vida digna, trabalho, moradia, saúde, educação e produção de alimentos. Mas estas reivindicações não se transformam em dólar, não ajudam a pagar a dívida em dia, não melhoram o "investment grade". Apenas melhoram a vida do povo trabalhador/a e ajudam na produção de alimentos em uma época em que se pensa em produzir alimentos para automóveis.
Também, ao mesmo tempo, anuncia-se uma grande descoberta de petróleo no chamado Bloco Carioca. Porém, ficamos sabendo que a maior parte da produção do Bloco Carioca já é destinada às empresas transnacionais. Apenas 45% da produção será nacional, sendo que a Repsol (espanhola) possui 25% e a British Gás (inglesa) 30%. Isto porque desde 1995, através de emenda constitucional, empresas estrangeiras podem extrair petróleo em território brasileiro. Será que o governo Lula não suspende estes convênios para não piorar o nosso "investment grade"?
Concomitante à avaliação da Standart & Poors, a Unesco divulga relatório que coloca o Brasil na 79º posição dentre os países que estão cumprindo as metas da educação básica, com universalização do ensino primário, alfabetização de adultos, paridade entre sexos e qualidade da educação. No mesmo ranking, todos os países latino-americanos "não confiáveis" ao "investiment grade" aparecem na nossa frente. Assim, Cuba aparece em 21º, a Argentina em 27º, a Venezuela em 64º, o Equador em 71º e a Bolívia em 72º.
Muitos e muitos outros exemplos poderiam ser citados na área social. Por enquanto fico com estes para mostrar que, ao contrário da euforia do governo em agradar especuladores, deveríamos estar construindo um país soberano e socialmente sério.
Correio da Cidadania 05/05/2008 http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1762/47/
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 17h03
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A Reconstrução da Esquerda

Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1660/47/
De um lado, a elite econômica composta por banqueiros, grandes comerciantes e grandes empresários lado a lado com a elite política representante da direita clássica ou do novo "centro" político. Este último, o centro, assumiu recentemente uma "social-democracia tardia", ou a "terceira via", configurando-se como liberal-sociais.
Os primeiros, da direita clássica, podem ser representados, partidariamente, pelo DEM, PP, PTB e parte do PSDB, PMDB e PDT e os segundos, de centro, pelo PT, PC do B e parte dos mesmos PSDB, PMDB e PDT. Estas elites diversas não realizam, hoje, nenhuma crítica ao capitalismo e estão plenamente acomodadas ao sistema, discutindo apenas quem "fez mais ou menos quando foi ou é governo", ou se o país está virando uma potência capitalista no contexto mundial.
Mas qual seria o "outro lado"? Depois de tantos anos neoliberais, de tantos partidos, movimentos e sindicatos caminharem para o lado conservador e esquecer as críticas ao capitalismo, ainda existiria um "outro lado" na sociedade brasileira? Ainda existiria um lado que quer transformar mais profundamente a sociedade e para isto se disporia a enfrentar o poder e as elites, como o antigo PT fazia? Certamente que sim, pois os sonhos e as necessidades reais de uma sociedade mais justa são completamente inseparáveis do ser humano.
Nunca, em tempo algum, o conformismo social foi totalizante. Sempre pessoas e grupos se rebelaram - mesmo que de forma minoritária - e são justamente estes grupos e pessoas, muitas vezes criticados no seu tempo, que pavimentam novos caminhos, novos sonhos e novas realidades. Assim, estamos vendo no Brasil atual um movimento, ainda pequeno e subterrâneo, e em certo ponto ainda vacilante perante o governo Lula, de novos atores entrando em cena.
São os movimentos sociais, sindicais, estudantis e políticos que, longe do poder, começam a debater e colocar em prática suas idéias e sonhos. Sonhos de reforma agrária, de educação para todos, de habitação, saneamento, trabalho justo, saúde, lazer e arte, dentre outros, como bens comuns. Lutam pelo socialismo e não têm medo de criticar o capitalismo. As ocupações estão sendo uma das principais marcas destas novas lutas, visíveis nas ocupações de terras e nas ocupações de diversos campus universitários. E cresce a esperança de que estes novos movimentos não sejam apenas atores sociais, mas sim autores de nossa própria história.
Temos outros exemplos. Estamos vendo os movimentos sociais, sindicais e estudantis se manifestarem na "Campanha Nacional pela Anulação do Leilão da Vale do Rio Doce". Esta campanha realiza manifestações e promoveu um plebiscito popular em setembro para saber se o povo brasileiro desejava anular a privatização, conseguindo trazer esta discussão à cena política.
Mas o eixo principal que delimita os projetos políticos no Brasil atual é a transposição do Rio São Francisco. Este projeto demarca claramente a posição capitalista do governo na defesa do agronegócio e das grandes obras, vendo nestas a possibilidade do "progresso brasileiro".
Ao mesmo tempo, pela esquerda, está se criando uma resistência e uma nova visão de sociedade, não mais baseada na defesa do "aumento do consumo interno" sem planejamento social ou de "produzir mais para exportar". A nova esquerda começa a discutir, por exemplo, uma reforma agrária no semi-árido que coloque o ser humano no centro das políticas e ofereça a possibilidade de uma vida simples e digna para os habitantes destas áreas.
Assim, tão importante quanto discutir a transposição em si, está colocada neste momento histórico para a esquerda a possibilidade de discutir novos referenciais políticos não-capitalistas, ou seja, novos referenciais para uma nova esquerda. Esta esquerda não deve mirar na produção e no consumo capitalista e nem querer concorrer com esta. Deve sim discutir e debater, de forma planejada socialmente, as necessidades humanas, sejam as básicas ou as novas que transcendam o mundo da necessidade e encaminhem para o mundo da liberdade humana.
Desta forma, vemos que, mesmo de forma tímida, os movimentos populares não estão totalmente paralisados pelas ações do governo, da oposição conservadora e nem das elites, e que temos uma oportunidade histórica de reconstruirmos, em novas bases, a esquerda.
Escrito por Prof. Antonio Julio de Menezes às 09h58
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